Anticiganismo e diversidade
Descendente de ciganos Calon e produtora cultural em Charqueadas (RS), Núbia Regina Ribas descreve os desafios enfrentados por grupos que seguem itinerantes para montar seus acampamentos em cidades gaúchas – os Calon são a principal etnia que preserva a tradição da itinerância. “Está cada vez mais difícil eles conseguirem espaços para acampar nos municípios, mesmo com as portarias que já existem”, enfatiza Núbia.
Durante a pandemia de Covid-19, Núbia relata que muitas organizações voluntárias negaram ajuda ao descobrir que seria destinada para ciganos. Durante alguns anos, ela fez parte do Instituto Cigano do Brasil e atualmente atua com a Rede Brasileira dos Povos Ciganos (RBPC), na defesa dos direitos e políticas públicas para grupos Calon.
Núbia também critica o plano elaborado pelo MIR e que, segundo a ativista, desconsidera a realidade e as necessidades particulares de cada etnia em seu contexto. Além disso, ela vê com desconfiança novas legislações, uma vez que, as atuais políticas são desrespeitadas pelos municípios, como a portaria n°4.384/2018 que instituiu normas para os atendimentos de saúde aos ciganos. “Eles acham que vão roubar na cidade deles ou que querem tomar a terra de alguém, são vários os preconceitos e em algumas cidades não tem diálogo nenhum”, pontua.
Na visão de Aluízio de Azevedo, para que as políticas públicas para os povos ciganos sejam efetivas, é necessário haver a circulação e apropriação pelos diferentes movimentos e etnias. “Os calons têm um estilo de vida, os Rom têm outro. Então, é importante reconhecer, saber diferenciar, entender que são culturas diferentes”, destaca o pesquisador.
Desde que assumiu o cargo de professor, Sandro Rista afirma nunca ter sido discriminado por um estudante. Por outro lado, enfrentou problemas como uma colega docente que somente o chamava de cigano, nunca pelo nome, mesmo dentro da escola e na presença dos alunos. “Onde ela me via, se fosse na rua ou dentro da escola, era só cigano. Eu pedi: ‘olha, colega a gente trabalha junto, quando a gente tá fora da escola e quer me chamar de cigano, tudo bem. Mas, aqui dentro da escola, ou pelo nome ou por professor, para não gerar problema com os alunos’”, relata ele.
Sandro admite que o problema não está na palavra em si, mas nos estereótipos construídos em torno dos ciganos, como a trapaça e o roubo. Esses discursos e as práticas de ódio atreladas a eles fazem com que muitos prefiram esconder sua origem, para evitar ataques como o sofrido pela fotógrafa Rose Winter.
“Tem bastante ciganos aqui que não se reconhecem, preferem se dizer alemães para não ter o problema do preconceito”, descreve Rose sobre a realidade de São Leopoldo, cidade conhecida como berço da colonização alemã no Rio Grande do Sul. No estado, a maioria das etnias ciganas estão concentradas em cidades de fronteira com a Argentina e Uruguai, sendo considerados povos tradicionais do bioma Pampa.
Oralidade, cultura e artes visuais
Presidente da Associação Cigana Itinerante do Rio Grande do Sul e gestora do Comitê dos Povos Tradicionais do Pampa, Rose conta que a maioria dos Sinti no Rio Grande do Sul sempre esteve ligada às artes, incluindo muitos grupos de ciganos circenses. Apesar disso, poucos circos se identificam dessa forma. “É triste, mas se as pessoas sabem que aquele circo é de cigano, eles não vão entrar (no município)”, explica a fotógrafa.
Rose conta que durante muitos anos também viajou por diferentes estados e países vizinhos, como Argentina e Uruguai. Desde os 14 anos também faz leitura da sorte, uma das características culturais das ciganas, junto das danças, como a Rumba Gitana, Ghawaze, Rom e Khalbelia, marcadas pela alegria e mistura de diferentes elementos.
Os vestidos e o uso de metais preciosos, inclusive nos dentes, são outros aspectos que compõem a cultura dos povos ciganos. Núbia Ribas ressalta, contudo, que existem diferenças no poder aquisitivo de cada grupo e etnia, o que interfere nos acampamentos e nas vestimentas. “As ciganas que tem um poder aquisitivo maior, elas estão sempre vestidas com os vestidos mais de festa. Já as ciganas que não tem tanto poder aquisitivo vão usar uma saia mais simples”, acrescenta.
Na culinária, a simplicidade é valorizada e é acompanhada de diferentes temperos e ervas medicinais, fruto também de uma relação próxima com a natureza e da valorização do benzimento. Outra marca das tradições ciganas é a oralidade. A maioria das línguas e dialetos ciganos são ágrafos, como o Romani, idioma dos Rom, e o Chib, falado pelos Calon.
A maioria desses elementos das culturas ciganas estão registrados em produções audiovisuais como a série “Diva e as Calins de MT”, produção da Associação Estadual das Etnias Ciganas de Mato Grosso, dirigida por Aluizio de Azevedo. Segundo o produtor cultural Calon, os documentários e filmes têm sido uma das alternativas para evitar a perda de tradições, um desafio encarado por diferentes culturas orais.
“É uma cultura milenar que enriquece a nossa diversidade brasileira. Muitas das características culturais do brasileiro que se atribuem aos portugueses, de verdade, são dos ciganos. Por exemplo, se você pensar a moda de viola, o sertanejo, isso é um traço muito característico dos calons”, ressalta Aluízio. Uma das produções audiovisuais recentes do produtor cultural é o filme “Caminhos Ciganos”, que também documenta a presença de ciganos em diferentes localidades do Brasil e de Portugal.
Segundo Aluízio, esses movimentos permitem começar a quebrar barreiras entre os ciganos e não ciganos. “É uma construção histórica que vai se desenhando. Antes também os casamentos eram muito mais endogâmicos. Hoje já tem muito mais pessoas ciganas casando com não ciganas. Tem muito mais ciganos frequentando a escola, com acesso à educação”, complementa o pesquisador e ativista.
Entre os depoimentos de Aluízio, Sandro, Núbia e Rose, ecoam as mazelas e os preconceitos que afetam os povos ciganos no Rio Grande do Sul e no Brasil. Do mesmo modo, transparece a diversidade e a riqueza cultural das diferentes etnias e de suas tradições, relegadas a uma posição subalterna na história do Brasil, justamente o país que possivelmente teve o único presidente descendente de ciganos, Juscelino Kubitschek (1956-1961).
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Micael Olegário